União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Psicologia

 

 

Artigo apresentado no I Simpósio de Espiritismo e Psicologia

Confesso, inicialmente, minha desconfiança com o termo “terceiro milênio”, que tão facilmente tem sido empregado nos meios religiosos. Na Europa medieval criou-se o “millennario” ou milenarismo, que era um sistema de idéias defendido por pessoas que sustentavam que o mundo acabaria no ano 1000 da era cristã. No pensamento contemporâneo o termo tem sido empregado para indicar sistemas e movimentos caracterizados pela idéia do fim do mundo, ou a pregar catástrofes e mudanças sociais bruscas que se realizarão em torno da passagem deste século . Não é sob este significado que gostaria de iniciar nossa discussão.

Entendo a idéia de terceiro milênio como uma oportunidade de refletirmos as transformações que vêm sofrendo as sociedades nos últimos séculos e de nos colocarmos diante do futuro, não de um futuro escatológico, mas de um futuro que construímos com nossas ações no mundo. Neste sentido, podemos concluir que já estamos vivendo o terceiro milênio, seja em função dos erros atribuídos ao cálculo do nascimento de Jesus de Nazaré, mas principalmente porque nos encontramos construindo o futuro com as nossas ações do aqui-e-agora.

Um outro ponto a ser esclarecido antes de apresentarmos nossas idéias diz respeito à distinção entre o psicólogo espírita e a Psicologia espírita. Psicólogo espírita somos nós, portadores de um registro nos muitos CRPs, que viveram um processo acadêmico de formação e temos em comum a simpatia pelas idéias espíritas e a atuação no movimento espírita. Já a Psicologia Espírita é algo em construção. Trata-se, ao mesmo tempo, da pesquisa dos fenômenos espirituais, deixados à parte e tratados de forma preconceituosa pelas universidades dos dois últimos séculos, e do emprego de princípios próprios ao Espiritismo, decorrentes dessa pesquisa, na prática do psicólogo.

Em nossa concepção, a Psicologia Espírita não deve ser construída como “mais uma linha ou escola psicológica” ou como uma prática clínica alternativa, mas como uma área da Psicologia que tem como objeto de estudo os fenômenos espirituais. Como sabemos, a Ciência e a Filosofia não se constituem apenas da publicação de pesquisas ou da postulação de idéias articuladas segundo a razão, mas dependem da aceitação dessas por uma comunidade científica e/ou filosófica. A construção de uma Psicologia Espírita, portanto, pressupõe a interlocução com a comunidade dos Psicólogos. Neste processo de interlocução, não se faz necessário que todos os psicólogos concordem com as idéias espíritas, (mesmo porque, se este pré-requisito fosse fundamental, não existiria Psicologia, nem Ciência e muito menos Filosofia). Faz-se necessário que reconheçam como legítimos os métodos empregados para a construção desta “nova” área da Psicologia e respeitem os frutos obtidos a partir de sua aplicação. Concomitante a este processo de construção da Psicologia Espírita como disciplina, faz-se indispensável a reflexão ética sobre as suas possíveis aplicações. Esta, também, não se faz “a portas fechadas", ou seja, apenas em meio aos simpatizantes.

Neste ponto de nossa fala já temos uma das respostas para o tema desta mesa. Uma das missões do psicólogo espírita no terceiro milênio é a construção da Psicologia Espírita. Como se vê, esta é uma missão que não depende apenas dos psicólogos espíritas, mas os senhores hão de convir conosco que eles são agentes fundamentais.

A análise da viabilidade deste projeto inclui a apreciação dos aspectos filosófico e científico do Espiritismo. Estes, por sua vez, têm esbarrado historicamente em situações de preconceito por parte da comunidade científica, como disse há pouco.

Como ilustração deste ponto de vista, temos a enquete realizada pelo prof. Lucien Warner, em 1938, aos membros da “American Psychological Association”, reapresentada a nós pelo Prof. Herculano Pires. Como resultado, apenas 17% dos consultados “mostravam-se dispostos a reconhecer que estava demonstrada a existência da percepção extra-sensorial, ou pelo menos a sua possibilidade” Considerando-se que mais de dois terços dos participantes não havia lido qualquer informe sobre as pesquisas existentes, o Dr. Rhine comenta esta pesquisa afirmando que “mais de 30% desses psicólogos sabiam, sem nenhuma espécie de prova, que a percepção extra-sensorial não existe”.

De forma semelhante tem sido a acolhida dos trabalhos espíritas nos últimos séculos. Da Europa, encontramos pesquisas desde a primeira metade do século XIX. Temos em português um dos livros do alemão, Dr. Justinus Kerner, onde se estudam os fenômenos de Frederica Hauffe, misto de médium e doente mental. A literatura francesa, alemã e italiana dos fenômenos induzidos por magnetismo, ou por hipnotismo, como seria aceito na academia, são também extensos, concluindo-se pela existência de fenômenos onde a cognição se dá sem o auxílio dos sentidos e da memória.

Na documentação da segunda metade do século XIX encontramos uma extensa casuística que sugere a comunicação com o espírito dos mortos e a ação destes sobre a matéria e sobre o psiquismo. Traduzido para o português temos trabalhos de Crookes, Richet, Lombroso, Conan Doyle, Geley, Flammarion, Delanne, Aksakof e Oliver Lodge. Ainda por ser traduzido (ou quem sabe encontrado em lojas de livros usados) temos os trabalhos de Robert Hare e Alfred Russel Wallace. No fim de século constituiu-se a "Society for Psychical Research" na Inglaterra e sua co-irmã nos Estados Unidos, denominada "American Society for Psychical Research". Estas duas instituições contaram com a colaboração de pesquisadores como William James, Henry Sidwick, William Barret, Lord Rayleigh, Balfour Stewart e Edmund Gurney, Frank Podmore, Richard Hogson, James Hyslop, Frederick Myers, entre outros. Na França, a médium Eusápia Paladino foi estudada, dentre muitos pesquisadores, pelo casal Pierre e Marie Curie. Poderíamos ainda enumerar uma página de pesquisadores menos conhecidos e seus trabalhos, mas certamente os senhores não me perdoariam. Esta lista já é grande o suficiente para reconhecer-se o quão frutuosos foram os trabalhos de pesquisa no século XIX e qual o quilate de seus autores. Apenas como curiosidade, dentre os nomes citados temos três que foram agraciados com o prêmio Nobel, e quase todos foram premiados e laureados por sua obra em suas áreas de origem. É pouquíssimo provável que qualquer um dos psicólogos presentes neste seminário tenham estudado pelo menos uma das pesquisas psíquicas destes homens, durante a sua formação.

Ao adentrarmos no século XX, para sermos breves, temos dois grandes movimentos de "repesquisa", a Metapsíquica e a Parapsicologia. A primeira constituída a partir dos trabalhos de Charles Richet (Nobel de Fisiologia - 1913) e a última consolidada com os trabalhos de Rhine na Duke University (EUA).

A Parapsicologia foi basicamente o desenvolvimento de técnicas experimentais com apoio estatístico em sujeitos indistintos para a constatação da existência das faculdades que ficaram conhecidas como percepção extra-sensorial. Ela se constituiu em decorrência da crítica que se fazia aos estudos de caso sobre médiuns e sensitivos, metodologia muito empregada nas pesquisas do século XIX e pela Metapsíquica. Se esta mesma crítica fosse dirigida aos trabalhos das ciências humanas e sociais, nos dias de hoje, teríamos que caçar os títulos de Mestre e Doutor concedidos por nossa Universidade a uma maioria absoluta de postulantes, e este impacto se faria igualmente avassalador nas Universidades Norte-Americanas e Européias.

Os trabalhos contemporâneos, entretanto, não se esgotam com estas duas escolas e, pelo contrário, multiplicaram-se.

Ilustrando, por exemplo, as pesquisas sobre a reencarnação, temos trabalhos publicados com os rigores da ciência há pelo menos um século. Das diversas linhas adotadas, encontramos as pesquisas com memórias espontâneas de crianças (STEVENSON, 1966, ANDRADE, 1988), memórias espontâneas de adultos (BANERJEE, 1979), recordações induzidas por hipnose e magnetismo (MIRANDA, 1989; DE ROCHAS, 1911; DELANNE, 1992) e recordações induzidas ou espontâneas em sessões psicoterapêuticas (WAMBACH, 1978; WEISS, 1981). Estas e outras linhas de pesquisa se acham compiladas no livro de MULLER (1986)

Desnecessário se faz repetir que a formação do Psicólogo não contempla estes trabalhos, que podem aparecer pontualmente (e muitas vezes de forma incompetente) nos cursos que possuem em sua grade a disciplina "Psicologia Transpessoal", que não são muitos.

Com este tempo escasso, furto-me de comentar o aspecto filosófico do Espiritismo no presente século, recomendando aos interessados as obras "O ser e a serenidade" e "Introdução à Filosofia Espírita" de Herculano Pires, "Parapsicologia e materialismo histórico" de Humberto Mariotti, "Religião" de Carlos Imbassahy e "O Espiritismo à luz da crítica" de Deolindo Amorim.

De volta ao nosso tema, considero, pelo acima exposto, que o Psicólogo Espírita tem por missão o conhecimento e a divulgação das pesquisas e do pensamento espírita, especialmente dos trabalhos que tangenciam o conhecimento e a prática da Psicologia.

Com as dificuldades e limitações já conhecidas, acreditamos ser viável que as organizações de profissionais espíritas sejam um pólo aglutinador do conhecimento que vem sendo produzido, que fomentem pesquisas, que incentivem esta aproximação com os órgãos de classe e as academias, que tenham posição clara e crítica aos arroubos e abusos que profissionais queiram cometer empregando o nome do conhecimento espírita, que promovam congressos e outras atividades de intercâmbio marcados pela identidade destas associações. Com isso quero dizer que estas associações possuem um papel que lhes é próprio, não devendo confundir-se o seu trabalho com o que as associações e sociedades espíritas já vêm realizando de forma competente.

A missão do Psicólogo Espírita vai além da construção de uma Psicologia Espírita, que, como vimos, amplia a percepção do objeto de estudo da Psicologia . Ela envolve a participação na construção de uma sociedade "sem miséria", como reflete Kardec em diálogo com os espíritos; envolve uma reflexão ética diante das mudanças nas relações de gênero e familiares; e envolve ainda reconstrução das relações de trabalho, tendo em vista a criação de espaços de subjetivação do trabalhador e o estabelecimento de relações menos predatórias e mais humanizantes. Estas ações não se limitam ao psicólogo espírita, mas que deveriam ser preocupação de todos os psicólogos, para não dizer, de todo homem de bem, em nossa sociedade.

Como já me estendi demais, encerro minha participação com as falas de dois psicólogos notáveis que tiveram a coragem de encarar a questão da vida após a morte. O primeiro registrou em seu livro de memórias a seguinte consideração:

"Mas recentemente observei em mim mesmo uma série de sonhos que, com toda a probabilidade, descrevem o processo de reencarnação de um morto de minhas relações. Era mesmo possível seguir, como uma probabilidade não totalmente negligenciável, certos aspectos dessa reencarnação até à realidade empírica. (...) Devo confessar, no entanto, que a partir dessa experiência observo com maior boa vontade o problema da reencarnação, sem no entanto defender com segurança uma opinião precisa." (JUNG, 1985, p. 276-277)

O segundo, não menos notável, mas certamente mais assertivo, redigiu em seus últimos livros o seguinte trecho:

"Helen era muito cética em relação a fenômenos psíquicos e à imortalidade. Mas fomos convidados a visitar uma médium honesta, que não cobraria pela consulta. Lá, Helen experimentou, e eu observei, um "contato" com sua irmã já falecida, envolvendo fatos de que a médium não poderia Ter conhecimento. As mensagens eram extraordinariamente convincentes e vieram através das batidas de uma sólida mesa, que soletrava as palavras. Mais tarde, quando a médium veio à minha casa e minha própria mesa soletrou mensagens em nossa sala de estar, só me restava ceder diante de uma experiência incrível e certamente não-fraudulenta. (...)

Todas estas experiências que estou mais sugerindo do que propriamente descrevendo, neste capítulo, tornaram-me muito mais aberto à hipótese da continuação do espírito humano, coisa que jamais acreditei ser possível. Estas experiências provocaram em mim um grande interesse por todo tipo de fenômenos paranormais. Modificaram completamente minha concepção do processo da morte. Agora considero possível que cada um de nós seja uma essência espiritual contínua, que se mantém através dos tempos e que ocasionalmente se encarna num corpo humano." (ROGERS, 1983a. P. 30-31)

Estas duas transcriuções pertencem a Carl G. Jung e à Carl Rogers, respectivamente, que certamente farão pensar, pela relevância de seu papel na construção da Psicologia, aos psicólogos não-espíritas que possam estar presentes neste evento.

 

Jáder Sampaio

 

Fontes Bibliográficas:

 

AMORIM, Deolindo. O Espiritismo à luz da crítica. Rio de Janeiro: Edições CELD, 1993.
ANDRADE, Hernani G. Reencarnação no Brasil. São Paulo: Clarim, 1988.
BANERJEE, H. Vida pretérita e futura. Rio de Janeiro: Nórdica, 1979.
DELANNE, Gabriel. A reencarnação. Rio de Janeiro: FEB, 1992.
EDGE, Hoyt et al. Foundations of Parapsychology. Boston: Routledge and Kegan Paul, 1986.
IMBASSAHY, Carlos. Religião. Rio de Janeiro: FEB, 1951.
JUNG, Carl G. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
MARIOTTI, Humberto. Parapsicologia e materialismo histórico. São Paulo: EDICEL, 1983.
MIRANDA, Hermínio. A memória e o tempo. São Paulo: EDICEL, 1986.
MIRANDA, Hermínio; ANJOS, Luciano. Eu sou Camille Desmoulins. Niterói-RJ: Arte e Cultura, 1989.
MULLER, Karl. Reencarnação baseada em fatos. São Paulo: EDICEL, 1986.
PIRES, Herculano. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: Paidéia, 1983.
PIRES, Herculano. O ser e a serenidade. São Paulo: EDICEL, s.n.
PIRES, J. Herculano. Parapsicologia hoje e amanhã. São Paulo: EDICEL, 1987.
ROGERS, Carl. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983a.
ROGERS, Carl et al. Em busca de vida: da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. São Paulo: Summus, 1983b.
STEVENSON, Ian. Twenty cases suggestive of reincarnation. New York: American Society for Psychical Research, 1966.
WAMBACH, Hellen. Recordando vidas passadas: depoimentos de pessoas hipnotizadas. São Paulo: Pensamento, 1995.
WEISS, Brian. Muitas vidas, muitos mestres. Rio de Janeiro: Salamandra, 1991.